Entre o negro do céu, do oceano, e do piche, tudo que se podia enxergar eram os faróis dos carros que passavam esporadicamente, como que apenas para não deixar a paisagem em tão completa escuridão.
Um carro parou. Pude apenas observar a silhueta de uma mulher antes que os faróis se apagassem e a escuridão retomasse. Mulher não, menina. Ou seria uma mulher? Desisti de classificá-la e apenas senti seus movimentos do carro até a muralha de pedra que impedia o avanço do mar. Não tinha pressa.
Mais nenhum carro passava pela rua cuja virgindade fora tirada pela menina-mulher que ali meditava, parada diante do mar, os olhos faiscando de admiração por aquele negrume revoltoso que jazia sob seus pés. Era a única coisa que eu conseguia enxergar. As faíscas que saltavam dos olhos dela. Olhos tão negros como tudo que estava ao seu redor. Mas ainda assim com um brilho inextinguível, inalcançável.
Outro brilho chamou minha atenção, e vi que acendia um cigarro. Junto com a fumaça que saía da sua boca, vieram as primeiras notas. Começou devagar, baixinho, como que cantando pra si mesma. Sua voz era suave, e me espantei com o quão gostosa era a sensação dela nos meus ouvidos. À medida que foi cantando mais alto, senti arrepios que se tornavam incontroláveis quando aquela voz alcançava graves que eu nunca sonhara em cantar.
Silêncio.
O cigarro apagara, e me desesperei.
O único cigarro que me restava tinha acabado. Me virei para ir embora quando um vulto surgiu à minha frente. Apesar da escuridão que nos engolia, não senti medo.
Me estendeu um cigarro, e com um sussurro agudo me pediu para cantar.
Na luz que veio da chama do isqueiro, enxerguei. Um par de asas. O meu olhar intrigado foi o suficiente para me fazer ficar novamente sozinha. Sozinha não. Eu sabia que em algum lugar nas trevas minha voz estava sendo esperada. Então cantei. Não sei por quanto tempo, mas quando silenciei o cigarro já havia acabado há muito. Ainda estava escuro. Tive a impressão que o sol nunca nascia naquele lugar.
Eu não queria ir embora, mas havia algo que eu precisava fazer, muito longe dali, em outro mundo talvez.. Então me virei e comecei a caminhar em direção ao carro.
Eu sabia que ela pararia, um dia haveria de parar. Ainda assim, a falta de notas deixou alguma espécie de vazio dentro de mim. Sussurei um agradecimento com a minha voz fina. Ela respondeu "o prazer foi meu."
Entrou no carro, deu a partida, e se foi, deixando a rua novamente no seu silêncio habitual.
Mas era óbvio que aquele lugar nunca mais seria o mesmo. Muito menos eu, continuaria a ser o que costumava ser.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
sábado, 15 de outubro de 2011
Vermelho-sangue
escuridão total. uma chama acende os contornos sutis de um rosto feminino. susto. ah, sou eu. meu reflexo no espelho do banheiro parece um pouco cadavérico em virtude da luz fraca e tremeluzente. Com a escassa luz do isqueiro, procuro uma vela na gaveta mais baixa. acho duas, lá no fundo, e as levo para a cozinha, aonde as acendo sobre um pires lascado.
Fome. já que há velas, porque não um jantar a luz de velas? Apesar de isso parecer absurdamente solitário, ponho as velas num castiçal oxidado que jazia há muito esquecido na área de serviço, e o ponho no centro da mesa. ele não parece oxidado na luz amarelada. seu prateado se ilumina com o dourado das chamas, e ele parece novo. me ponho a trabalhar. corto verduras, legumes, camarões, temperos, tudo apenas na luz das velas e do fogão, mas ainda assim, caprichosamente, como que para agradar o paladar e a escassa visão de um outro alguém. o cheiro toma a cozinha. acho que nunca fiz algo tão gostoso. quando parei pra pensar como seria bom que ela o provasse, à luz de velas, comigo, me lembrei. corri pro quarto. e lá estava ela, indefesa, adormecida. minha visão já acostumada à escuridão conseguia definir as formas femininas do corpo dela.. mas o tato sempre foi um sentido muito prezado por mim. e assim, a senti inteira com a ponta dos meus dedos, até que cheguei aos seus lábios. com um beijo leve, sussurrei "vem jantar comigo, meu amor". ela abriu os olhos lentamente, como quem sai de um sono leve, e eu vi o sorriso primeiro neles, aqueles olhos que brilhavam não importasse o quão escuro o mundo inteiro estivesse, e depois nos seus lábios.
estendi minha mão, e notei que ela usava um vestido vermelho, e só então também reparei que usava um vestido, negro. a guiei até a cozinha. sem tirar os olhos daquele sorriso leve que me alegrava inteira, e puxei a cadeira para ela sentar. fui até a sala, e coloquei uma música lenta pra tocar baixinho. quando voltei à cozinha, havia sobre a mesa uma garrafa de vinho tinto e duas taças, ambas preenchidas com o líquido vermelho-sangue. ela olhou pra mim e ergueu a taça quando me sentei. "a nós." ela sussurrou "a nós." eu respondi, tocando levemente minha taça na dela, e tomamos um gole. me levantei e pus a mesa, aquela refeição magnífica que nunca em mil anos imaginei preparar. mas estava lá, e era deliciosa.
a garrafa de vinho já estava na metade, e os pratos vazios. ela se levantou, estenteu a mão pra mim, e quando a tomei na minha, me puxou para um abraço. começamos a dançar. no início devagar, acompanhando a música lenta. mas as músicas foram crescendo, assim como nossa volúpia, e em instantes dançávamos um tango furioso, cegas de desejo, praticamente despidas. a cama, tão distante, não foi nem cogitada. nos amamos ali no chão mesmo, ao som de alguma música clássica que acompanhava com perfeição nossos momentos de desespero e calmaria.
olhei para os nossos vestidos entrelaçados, e em seguida nossos corpos, também entrelaçados. a única luz da casa eram as velas, que já ameaçavam apagar. disse que te amava. foi quando a escuridão veio e levou a música junto.
Me acordei repentinamente. tinha lembranças muito vagas de algum sonho que parecia muito bom. nele, ela morava na minha casa. nele, eu sabia cozinhar divinamente e dançar muito bem.. mergulhei na sensação dele e fiquei alguns instantes nesse estupor, até que senti um cheiro excelente vindo da cozinha. no momento que pus meus pés no chão, ela apareceu, com o mesmo vestido vermelho do sonho. com um sorriso, balançou as chaves-reserva que eu sempre deixava no vaso do lado de fora do apartamento. achando graça no meu estupor, me pôs novamente na cama, e apenas com um olhar, me disse pra esperar, ela tinha uma surpresa pra mim. saiu fechando a porta do quarto. me levantei imediatamente, e abri a porta do armário. meu vestido preto estava lá. o vesti com uma sensação de déjà vu, e acabei adormecendo novamente na espera. quando acordei novamente, havia apenas escuridão, e os dedos dela percorrendo minha pele. Senti um beijo leve, e um sussuro "vem jantar comigo, meu amor". E me deixei ser levada sorrindo, pelas mãos suaves da mulher da minha vida.
Fome. já que há velas, porque não um jantar a luz de velas? Apesar de isso parecer absurdamente solitário, ponho as velas num castiçal oxidado que jazia há muito esquecido na área de serviço, e o ponho no centro da mesa. ele não parece oxidado na luz amarelada. seu prateado se ilumina com o dourado das chamas, e ele parece novo. me ponho a trabalhar. corto verduras, legumes, camarões, temperos, tudo apenas na luz das velas e do fogão, mas ainda assim, caprichosamente, como que para agradar o paladar e a escassa visão de um outro alguém. o cheiro toma a cozinha. acho que nunca fiz algo tão gostoso. quando parei pra pensar como seria bom que ela o provasse, à luz de velas, comigo, me lembrei. corri pro quarto. e lá estava ela, indefesa, adormecida. minha visão já acostumada à escuridão conseguia definir as formas femininas do corpo dela.. mas o tato sempre foi um sentido muito prezado por mim. e assim, a senti inteira com a ponta dos meus dedos, até que cheguei aos seus lábios. com um beijo leve, sussurrei "vem jantar comigo, meu amor". ela abriu os olhos lentamente, como quem sai de um sono leve, e eu vi o sorriso primeiro neles, aqueles olhos que brilhavam não importasse o quão escuro o mundo inteiro estivesse, e depois nos seus lábios.
estendi minha mão, e notei que ela usava um vestido vermelho, e só então também reparei que usava um vestido, negro. a guiei até a cozinha. sem tirar os olhos daquele sorriso leve que me alegrava inteira, e puxei a cadeira para ela sentar. fui até a sala, e coloquei uma música lenta pra tocar baixinho. quando voltei à cozinha, havia sobre a mesa uma garrafa de vinho tinto e duas taças, ambas preenchidas com o líquido vermelho-sangue. ela olhou pra mim e ergueu a taça quando me sentei. "a nós." ela sussurrou "a nós." eu respondi, tocando levemente minha taça na dela, e tomamos um gole. me levantei e pus a mesa, aquela refeição magnífica que nunca em mil anos imaginei preparar. mas estava lá, e era deliciosa.
a garrafa de vinho já estava na metade, e os pratos vazios. ela se levantou, estenteu a mão pra mim, e quando a tomei na minha, me puxou para um abraço. começamos a dançar. no início devagar, acompanhando a música lenta. mas as músicas foram crescendo, assim como nossa volúpia, e em instantes dançávamos um tango furioso, cegas de desejo, praticamente despidas. a cama, tão distante, não foi nem cogitada. nos amamos ali no chão mesmo, ao som de alguma música clássica que acompanhava com perfeição nossos momentos de desespero e calmaria.
olhei para os nossos vestidos entrelaçados, e em seguida nossos corpos, também entrelaçados. a única luz da casa eram as velas, que já ameaçavam apagar. disse que te amava. foi quando a escuridão veio e levou a música junto.
Me acordei repentinamente. tinha lembranças muito vagas de algum sonho que parecia muito bom. nele, ela morava na minha casa. nele, eu sabia cozinhar divinamente e dançar muito bem.. mergulhei na sensação dele e fiquei alguns instantes nesse estupor, até que senti um cheiro excelente vindo da cozinha. no momento que pus meus pés no chão, ela apareceu, com o mesmo vestido vermelho do sonho. com um sorriso, balançou as chaves-reserva que eu sempre deixava no vaso do lado de fora do apartamento. achando graça no meu estupor, me pôs novamente na cama, e apenas com um olhar, me disse pra esperar, ela tinha uma surpresa pra mim. saiu fechando a porta do quarto. me levantei imediatamente, e abri a porta do armário. meu vestido preto estava lá. o vesti com uma sensação de déjà vu, e acabei adormecendo novamente na espera. quando acordei novamente, havia apenas escuridão, e os dedos dela percorrendo minha pele. Senti um beijo leve, e um sussuro "vem jantar comigo, meu amor". E me deixei ser levada sorrindo, pelas mãos suaves da mulher da minha vida.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Ele estava profundamente apaixonado. Ela era tudo que ele sempre sonhara, e viver com ela era tudo que existia em sua vida. Moravam juntos, num aparamento minúsculo entre dois arranha-céus. Ele não lembrava exatamente como a havia conhecido, mas ale dizia que era coisa de homem, e se conformava, contando uma história linda de sol, parques, vinho e irrigadores, e ele acreditava.
Ela era veterinária, e ele a auxiliava na tarefa. Não se desgrudavam, o dia inteiro. Os amigos dela não falavam com ele, mas ele nunca se importara com esse fato, tímido como era. Ele deduzia que tal tratamento era por roubar tanto tempo dela, e compreendia, se limitando a rir das piadas e segurar a mão dela quando saiam juntos. Depois voltavam pra casa e ela o abraçava e dizia o quanto ele era perfeito e diferente de qualquer outra pessoa nesse mundo, e faziam amor até cair no sono.
Mas ser ignorado por ela na frente de clientes e amigos sempre o incomodara, e houve um dia que ele não aguentou mais. Depois de tanto tempo juntos, eles brigavam pela primeira vez. Ele falou, falou, falou, e ela se limitou a ouvir. Quando o silêncio se fez ouvir, ela olhou pra baixo e disse: "é que você é fruto da minha imaginação."
Ele ficou atordoado. Mas riu descrente, até que ela insistiu "Você é meu namorado imaginário." E aí ele compreendeu. O modo como suas respirações eram sincronizadas. Como seus movimentos eram parecidos. Não lembrava de ter vida antes dela e soube que não haveria sem ela. Um pouco de desespero o tomou, mas aí se decidiu. Precisavam um do outro, então ele ficaria.
E ele ficou. Até que ela o pediu para ir embora. Quando já estava casada e grávida. "Tarde demais" ele disse. Mas aquilo não estava nas mãos dele. Se notou mais claro a cada dia, esmaecendo. Quando a criança nasceu, só teve tempo para uma último olhar, antes que desaparecesse completamente da face da terra. e da memória dela.
Ela era veterinária, e ele a auxiliava na tarefa. Não se desgrudavam, o dia inteiro. Os amigos dela não falavam com ele, mas ele nunca se importara com esse fato, tímido como era. Ele deduzia que tal tratamento era por roubar tanto tempo dela, e compreendia, se limitando a rir das piadas e segurar a mão dela quando saiam juntos. Depois voltavam pra casa e ela o abraçava e dizia o quanto ele era perfeito e diferente de qualquer outra pessoa nesse mundo, e faziam amor até cair no sono.
Mas ser ignorado por ela na frente de clientes e amigos sempre o incomodara, e houve um dia que ele não aguentou mais. Depois de tanto tempo juntos, eles brigavam pela primeira vez. Ele falou, falou, falou, e ela se limitou a ouvir. Quando o silêncio se fez ouvir, ela olhou pra baixo e disse: "é que você é fruto da minha imaginação."
Ele ficou atordoado. Mas riu descrente, até que ela insistiu "Você é meu namorado imaginário." E aí ele compreendeu. O modo como suas respirações eram sincronizadas. Como seus movimentos eram parecidos. Não lembrava de ter vida antes dela e soube que não haveria sem ela. Um pouco de desespero o tomou, mas aí se decidiu. Precisavam um do outro, então ele ficaria.
E ele ficou. Até que ela o pediu para ir embora. Quando já estava casada e grávida. "Tarde demais" ele disse. Mas aquilo não estava nas mãos dele. Se notou mais claro a cada dia, esmaecendo. Quando a criança nasceu, só teve tempo para uma último olhar, antes que desaparecesse completamente da face da terra. e da memória dela.
domingo, 31 de julho de 2011
Água Salgada
Na cama, em posição fetal. Cada lágrima doía como se estivessem send arrancadas dela. Em posição fetal, porque a dor física ameniza a dor interna. E abraçando-se poderia se sentir protegida, com todo aquele aperto ao redor das pernas. Chorando, porque tinha medo. Medo de ter mais saudades, e essas não serem curadas nunca. O lençol molhou, o colchão também, e logo o chão do quarto começou a encher. Encher das lágrimas salgadas que eram extraídas uma a uma à força dos olhos da menina. Então a água chegou à altura do seu rosto. Se continuasse a chorar, provavelmente se afogaria naquela enchente de tristeza. Foi aí que chorou com mais intensidade ainda, não se sabe se num instinto suicida de que depois da morte tudo se resolveria, ou se num desespero repentino. Tudo que se sabe é que o mar, até hoje, não parou de encher.
12/07
12/07
sexta-feira, 15 de julho de 2011
For Her
Quando eu acordei, o sol não estava brilhando. No lugar dele havia um buraco, parecendo um buraco negro, que sugava todas as nuvens e toda a luz dos postes que antes luminavam a cidade. Não havia lua, e qualquer vela que fosse acesa, qualquer lanterna ligada, era imediatamente engolida pela escuridão daquele círculo negro. só havia uma luz que ainda brilhava. Eram os teus olhos. Uma vez tinham me dito que a luz que havia nos olhos das pessoas era apenas um reflexo. E que assim que a luz fosse embora, os olhos seriam engolidos pela escuridão. Assim era com todas as pessoas que miravam espantadas o seu antigo sol abafar cada centelha. Mas não com você. Teus olhos brilhavam, eram chamas naquela escuridão abafada.
Teus olhos crepitavam na direção dos meus. Era a única coisa que eu conseguia ver, e pareciam a única coisa que já havia existido.
Numa epifania, eu soube que jamais amaria outros olhos que não aqueles.
Teus olhos crepitavam na direção dos meus. Era a única coisa que eu conseguia ver, e pareciam a única coisa que já havia existido.
Numa epifania, eu soube que jamais amaria outros olhos que não aqueles.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Passe C - Victor Camarote e Banda Arquibancada
eu sei que isso é um blog sério e talz [NOT], mas eu não resisti e decidi postar isso.
Ela estava parada em minha frente, esperando o mesmo ônibus que eu
O coletivo estava atrasado, e o cupido apressado apareceu
Me acertou com suas flechas amorosas, dilacerando por completo o meu ser
E a partir daquele momento não sabia mais o que fazer
Se eu tivesse a lua, eu a daria pra você, mas como não tenho nada
Eu lhe ofereço um Passe C
Se eu tivesse a lua, eu a daria pra você, mas como não tenho nada
Eu lhe ofereço um Passe C
Troque seu coração por um Passe C, não consigo te esquecer pois você é minha adorada
Hoje já deves saber minha querida, que tu és a minha vida e um Passe C é melhor que nada
Finalmente o coletivo chegou, tirei a frente e você entrou
Sentaste bem atrás do motorista, mesmo assim não te perdi de vista
Foram mais de duas horas de viagem, naquele ônibus lotado
Mas eu nem me dei conta, pois estava apaixonado
Mesmo se eu não tivesse um Passe C, você escutaria o meu lamento
Eu lhe daria um Passe B e ainda o complemento
Mesmo se eu não tivesse um Passe C, você escutaria o meu lamento
Eu lhe daria um Passe B e ainda o complemento
Os passageiros logo foram descendo, cada qual em sua parada
O lugar ao seu lado foi roubado e eu não tive coragem de fazer nada
Quando finalmente eu me levantei para ir sentar bem próximo a você
E então você se levantou e pediu ao motorista pra descer
O motorista prontamente atendeu e na próxima parada ele parou
Você majestosamente desceu, um caminhão veio e lhe atropelou
Que sorte a minha não ter lhe dado o meu Passe C
Você sabe como é, hoje eu estaria a pé...
Que sorte a minha, não ter lhe dado o meu Passe C
Você sabe como é, hoje eu estaria a pé...
PURA POESIA
Ela estava parada em minha frente, esperando o mesmo ônibus que eu
O coletivo estava atrasado, e o cupido apressado apareceu
Me acertou com suas flechas amorosas, dilacerando por completo o meu ser
E a partir daquele momento não sabia mais o que fazer
Se eu tivesse a lua, eu a daria pra você, mas como não tenho nada
Eu lhe ofereço um Passe C
Se eu tivesse a lua, eu a daria pra você, mas como não tenho nada
Eu lhe ofereço um Passe C
Troque seu coração por um Passe C, não consigo te esquecer pois você é minha adorada
Hoje já deves saber minha querida, que tu és a minha vida e um Passe C é melhor que nada
Finalmente o coletivo chegou, tirei a frente e você entrou
Sentaste bem atrás do motorista, mesmo assim não te perdi de vista
Foram mais de duas horas de viagem, naquele ônibus lotado
Mas eu nem me dei conta, pois estava apaixonado
Mesmo se eu não tivesse um Passe C, você escutaria o meu lamento
Eu lhe daria um Passe B e ainda o complemento
Mesmo se eu não tivesse um Passe C, você escutaria o meu lamento
Eu lhe daria um Passe B e ainda o complemento
Os passageiros logo foram descendo, cada qual em sua parada
O lugar ao seu lado foi roubado e eu não tive coragem de fazer nada
Quando finalmente eu me levantei para ir sentar bem próximo a você
E então você se levantou e pediu ao motorista pra descer
O motorista prontamente atendeu e na próxima parada ele parou
Você majestosamente desceu, um caminhão veio e lhe atropelou
Que sorte a minha não ter lhe dado o meu Passe C
Você sabe como é, hoje eu estaria a pé...
Que sorte a minha, não ter lhe dado o meu Passe C
Você sabe como é, hoje eu estaria a pé...
PURA POESIA
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Gotinhas de chuva
A chuva caía do lado de fora, enquanto a menina observava alegre as gotinhas escorrendo pelo vidro, escolhendo duas ao acaso e torcendo para que uma delas chegasse ao chão primeiro. Estava deitada no piso de madeira, e aquela cena pareceria poética para alguém que estivesse passando na rua, mas ninguém olhava. Todos se concentravam em não molhar demais os sapatos ou não estragar a escova, escondidos debaixo de seus guarda-chuvas. Mas lá estava a menina, sorrindo ao olhar a competição das gotinhas.
Ela amava a chuva. Mais do que qualquer outra coisa que conseguia lembrar. Mais até do que pizza ou palmito. Já tomara tantos banhos de chuva que os dedinhos de uma de suas mãos já não eram suficientes, e contava a todos com orgulho: "Já tomei mais banhos de chuva do que a minha idade!". Escapava assim que as primeiras gotas caíam, e quando seus pais se davam conta já estava ensopada e com um sorriso iluminando seu rosto. E nunca ficara doente por causa disso. Não importava o quanto se molhasse, a água parecia parte dela.
Um dia essa menina cresceu, se ocupou com amigos e estudos, arrumou um namorado, deixou de tomar banho de chuva. Mas não deixava de sorrir quando ouvia o barulho das gotas batendo no teto de sua casa e sentia aquele cheiro que lhe trazia tão boas lembranças.
Se levantou ao escrever a última palavra de sua tese, e levou a caneca de café já vazia para a cozinha. "Mamãe, olha a chuva!". Lá estava sua pequena, deitada no chão, olhando a chuva e torcendo pelas gotinhas.
Uma gota, que não era de chuva, escorreu pelo seu rosto.
Fevereiro ou Março de 2010, quando a saudade de Cristine Queiroz apertou =)
Ela amava a chuva. Mais do que qualquer outra coisa que conseguia lembrar. Mais até do que pizza ou palmito. Já tomara tantos banhos de chuva que os dedinhos de uma de suas mãos já não eram suficientes, e contava a todos com orgulho: "Já tomei mais banhos de chuva do que a minha idade!". Escapava assim que as primeiras gotas caíam, e quando seus pais se davam conta já estava ensopada e com um sorriso iluminando seu rosto. E nunca ficara doente por causa disso. Não importava o quanto se molhasse, a água parecia parte dela.
Um dia essa menina cresceu, se ocupou com amigos e estudos, arrumou um namorado, deixou de tomar banho de chuva. Mas não deixava de sorrir quando ouvia o barulho das gotas batendo no teto de sua casa e sentia aquele cheiro que lhe trazia tão boas lembranças.
Se levantou ao escrever a última palavra de sua tese, e levou a caneca de café já vazia para a cozinha. "Mamãe, olha a chuva!". Lá estava sua pequena, deitada no chão, olhando a chuva e torcendo pelas gotinhas.
Uma gota, que não era de chuva, escorreu pelo seu rosto.
Fevereiro ou Março de 2010, quando a saudade de Cristine Queiroz apertou =)
terça-feira, 26 de abril de 2011
O relógio no seu pulso contava o tempo vagarosamente, enquanto ela esperava. Estava inpaciente, com o olhar acompanhando cada segundo que o ponteiro vermelho marcava com suplício. "Está atrasada. Muito atrasada." Ela detestava atrasos e todas as desculpas que vinham a seguir. Logo o relógio passou a ser acompanhado pelo barulho do salto batendo na madeira, ritmadamente, fazendo assim uma espécie de música da espera, preenchendo todo o silêncio que a fazia pensar. Um sorriso. O primeiro, desde que se declarara pronta. Lembrava de momentos felizes, como o primeiro beijo delas, na frente de uma igreja, para desgosto de todas as beatas e cristãos fervorosos. A primeira vez que se viram, quando uma espécie de corrente elétrica se espalhara. Quando um arrepio percorrera sua espinha ao ouvir a voz meio rouca, meio sedutora rir de sua piada menos inteligente. O momento em que se percebera apaixonada. "O relógio, cadê?!" Esquecera-se de contar o tempo ao se perder entre as lembranças. "Extremamente atrasada agora." Ela pensou com um certo desprezo. Então chegou. Não ela, mas uma carta, que passada por debaixo da porta, atraíra sua atenção. Na carta, apenas duas palavras "Casa comigo?" Abriu a porta e ela estava lá, linda, seu menininho de cabelo comprido, sorrindo como uma boba ao fitar a mulher que amava.
"Claro que sim, bobinha."
Dez/2009
"Claro que sim, bobinha."
Dez/2009
domingo, 27 de março de 2011
O Mar
O meu coração batia loucamente no peito, e eu decidi que iria procurá-la. Eu não sabia porque ela tinha fugido, nem sequer tinha certeza de onde a encontraria, mas peguei a primeira roupa que vi pela frente e me agarrei à primeira desculpa que surgiu na minha cabeça.
Eu tinha dois palpites de onde ela estaria.
Não consegui ter medo de ser assaltada andando sozinha na escuridão, só sentia que precisava encontrá-la, por mim e por ela, e que se não conseguisse, seria como se tivesse falhado com o meu amor. A procurei com os olhos, mas não a encontrei. me senti derrotada.
Ainda restava o outro palpite.
Mas o mar era enorme, e o desespero de não conseguir encontrar ela me tomou... agradeci mentalmente por não ter contado a ninguém que iria procurá-la. Comecei a me sentir envergonhada... quem era eu pra encontrar alguém na imensidão de uma cidade?
Não custava nada arriscar, então fui ao mar.
Eu não enxergava muito bem sem óculos, mas aquele jeito de andar e aquele corpo eu reconheceria até de olhos fechados. Ela andava rápido na calçada oposta.
Quase corri no meu êxtase, e toquei no ombro dela. Ela se virou já me abraçando. Acho que não precisou olhar pra saber quem era.
E eu me senti grande. Me senti maior do que o mundo porque ela era minha. Porque a havia encontrado. Porque eu sentia que, nos meus braços, ela ficava melhor do que longe deles.
Eu tinha dois palpites de onde ela estaria.
Não consegui ter medo de ser assaltada andando sozinha na escuridão, só sentia que precisava encontrá-la, por mim e por ela, e que se não conseguisse, seria como se tivesse falhado com o meu amor. A procurei com os olhos, mas não a encontrei. me senti derrotada.
Ainda restava o outro palpite.
Mas o mar era enorme, e o desespero de não conseguir encontrar ela me tomou... agradeci mentalmente por não ter contado a ninguém que iria procurá-la. Comecei a me sentir envergonhada... quem era eu pra encontrar alguém na imensidão de uma cidade?
Não custava nada arriscar, então fui ao mar.
Eu não enxergava muito bem sem óculos, mas aquele jeito de andar e aquele corpo eu reconheceria até de olhos fechados. Ela andava rápido na calçada oposta.
Quase corri no meu êxtase, e toquei no ombro dela. Ela se virou já me abraçando. Acho que não precisou olhar pra saber quem era.
E eu me senti grande. Me senti maior do que o mundo porque ela era minha. Porque a havia encontrado. Porque eu sentia que, nos meus braços, ela ficava melhor do que longe deles.
sábado, 19 de março de 2011
As flores se foram. Depois da vida dela virar de cabeça pra baixo e absolutamente tudo mudar, ela resolveu fazer aquele caminho de suas antigas manhãs, mas as flores não estavam mais lá. No lugar delas, um muro de metal se erguia, sóbrio e de cara fechada. Não admitia flores. No máximo a logomarca de uma construtora qualquer.
Mas logo aquelas flores, que um dia a tinham salvado.. ficou triste. O muro de metal não embelezava, não alimentava as abelhas e borboletas. Ele demarcava o local onde mais um prédio seria erguido, mais concreto na direção do céu. Prá quê tanto concreto? Eu só queria minhas flores de volta.
26/02/2011
Mas logo aquelas flores, que um dia a tinham salvado.. ficou triste. O muro de metal não embelezava, não alimentava as abelhas e borboletas. Ele demarcava o local onde mais um prédio seria erguido, mais concreto na direção do céu. Prá quê tanto concreto? Eu só queria minhas flores de volta.
26/02/2011
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
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