quarta-feira, 27 de abril de 2011

Gotinhas de chuva

A chuva caía do lado de fora, enquanto a menina observava alegre as gotinhas escorrendo pelo vidro, escolhendo duas ao acaso e torcendo para que uma delas chegasse ao chão primeiro. Estava deitada no piso de madeira, e aquela cena pareceria poética para alguém que estivesse passando na rua, mas ninguém olhava. Todos se concentravam em não molhar demais os sapatos ou não estragar a escova, escondidos debaixo de seus guarda-chuvas. Mas lá estava a menina, sorrindo ao olhar a competição das gotinhas.
Ela amava a chuva. Mais do que qualquer outra coisa que conseguia lembrar. Mais até do que pizza ou palmito. Já tomara tantos banhos de chuva que os dedinhos de uma de suas mãos já não eram suficientes, e contava a todos com orgulho: "Já tomei mais banhos de chuva do que a minha idade!". Escapava assim que as primeiras gotas caíam, e quando seus pais se davam conta já estava ensopada e com um sorriso iluminando seu rosto. E nunca ficara doente por causa disso. Não importava o quanto se molhasse, a água parecia parte dela.
Um dia essa menina cresceu, se ocupou com amigos e estudos, arrumou um namorado, deixou de tomar banho de chuva. Mas não deixava de sorrir quando ouvia o barulho das gotas batendo no teto de sua casa e sentia aquele cheiro que lhe trazia tão boas lembranças.
Se levantou ao escrever a última palavra de sua tese, e levou a caneca de café já vazia para a cozinha. "Mamãe, olha a chuva!". Lá estava sua pequena, deitada no chão, olhando a chuva e torcendo pelas gotinhas.
Uma gota, que não era de chuva, escorreu pelo seu rosto.



Fevereiro ou Março de 2010, quando a saudade de Cristine Queiroz apertou =)

terça-feira, 26 de abril de 2011

O relógio no seu pulso contava o tempo vagarosamente, enquanto ela esperava. Estava inpaciente, com o olhar acompanhando cada segundo que o ponteiro vermelho marcava com suplício. "Está atrasada. Muito atrasada." Ela detestava atrasos e todas as desculpas que vinham a seguir. Logo o relógio passou a ser acompanhado pelo barulho do salto batendo na madeira, ritmadamente, fazendo assim uma espécie de música da espera, preenchendo todo o silêncio que a fazia pensar. Um sorriso. O primeiro, desde que se declarara pronta. Lembrava de momentos felizes, como o primeiro beijo delas, na frente de uma igreja, para desgosto de todas as beatas e cristãos fervorosos. A primeira vez que se viram, quando uma espécie de corrente elétrica se espalhara. Quando um arrepio percorrera sua espinha ao ouvir a voz meio rouca, meio sedutora rir de sua piada menos inteligente. O momento em que se percebera apaixonada. "O relógio, cadê?!" Esquecera-se de contar o tempo ao se perder entre as lembranças. "Extremamente atrasada agora." Ela pensou com um certo desprezo. Então chegou. Não ela, mas uma carta, que passada por debaixo da porta, atraíra sua atenção. Na carta, apenas duas palavras "Casa comigo?" Abriu a porta e ela estava lá, linda, seu menininho de cabelo comprido, sorrindo como uma boba ao fitar a mulher que amava.
"Claro que sim, bobinha."

Dez/2009