Ele estava profundamente apaixonado. Ela era tudo que ele sempre sonhara, e viver com ela era tudo que existia em sua vida. Moravam juntos, num aparamento minúsculo entre dois arranha-céus. Ele não lembrava exatamente como a havia conhecido, mas ale dizia que era coisa de homem, e se conformava, contando uma história linda de sol, parques, vinho e irrigadores, e ele acreditava.
Ela era veterinária, e ele a auxiliava na tarefa. Não se desgrudavam, o dia inteiro. Os amigos dela não falavam com ele, mas ele nunca se importara com esse fato, tímido como era. Ele deduzia que tal tratamento era por roubar tanto tempo dela, e compreendia, se limitando a rir das piadas e segurar a mão dela quando saiam juntos. Depois voltavam pra casa e ela o abraçava e dizia o quanto ele era perfeito e diferente de qualquer outra pessoa nesse mundo, e faziam amor até cair no sono.
Mas ser ignorado por ela na frente de clientes e amigos sempre o incomodara, e houve um dia que ele não aguentou mais. Depois de tanto tempo juntos, eles brigavam pela primeira vez. Ele falou, falou, falou, e ela se limitou a ouvir. Quando o silêncio se fez ouvir, ela olhou pra baixo e disse: "é que você é fruto da minha imaginação."
Ele ficou atordoado. Mas riu descrente, até que ela insistiu "Você é meu namorado imaginário." E aí ele compreendeu. O modo como suas respirações eram sincronizadas. Como seus movimentos eram parecidos. Não lembrava de ter vida antes dela e soube que não haveria sem ela. Um pouco de desespero o tomou, mas aí se decidiu. Precisavam um do outro, então ele ficaria.
E ele ficou. Até que ela o pediu para ir embora. Quando já estava casada e grávida. "Tarde demais" ele disse. Mas aquilo não estava nas mãos dele. Se notou mais claro a cada dia, esmaecendo. Quando a criança nasceu, só teve tempo para uma último olhar, antes que desaparecesse completamente da face da terra. e da memória dela.
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