escuridão total. uma chama acende os contornos sutis de um rosto feminino. susto. ah, sou eu. meu reflexo no espelho do banheiro parece um pouco cadavérico em virtude da luz fraca e tremeluzente. Com a escassa luz do isqueiro, procuro uma vela na gaveta mais baixa. acho duas, lá no fundo, e as levo para a cozinha, aonde as acendo sobre um pires lascado.
Fome. já que há velas, porque não um jantar a luz de velas? Apesar de isso parecer absurdamente solitário, ponho as velas num castiçal oxidado que jazia há muito esquecido na área de serviço, e o ponho no centro da mesa. ele não parece oxidado na luz amarelada. seu prateado se ilumina com o dourado das chamas, e ele parece novo. me ponho a trabalhar. corto verduras, legumes, camarões, temperos, tudo apenas na luz das velas e do fogão, mas ainda assim, caprichosamente, como que para agradar o paladar e a escassa visão de um outro alguém. o cheiro toma a cozinha. acho que nunca fiz algo tão gostoso. quando parei pra pensar como seria bom que ela o provasse, à luz de velas, comigo, me lembrei. corri pro quarto. e lá estava ela, indefesa, adormecida. minha visão já acostumada à escuridão conseguia definir as formas femininas do corpo dela.. mas o tato sempre foi um sentido muito prezado por mim. e assim, a senti inteira com a ponta dos meus dedos, até que cheguei aos seus lábios. com um beijo leve, sussurrei "vem jantar comigo, meu amor". ela abriu os olhos lentamente, como quem sai de um sono leve, e eu vi o sorriso primeiro neles, aqueles olhos que brilhavam não importasse o quão escuro o mundo inteiro estivesse, e depois nos seus lábios.
estendi minha mão, e notei que ela usava um vestido vermelho, e só então também reparei que usava um vestido, negro. a guiei até a cozinha. sem tirar os olhos daquele sorriso leve que me alegrava inteira, e puxei a cadeira para ela sentar. fui até a sala, e coloquei uma música lenta pra tocar baixinho. quando voltei à cozinha, havia sobre a mesa uma garrafa de vinho tinto e duas taças, ambas preenchidas com o líquido vermelho-sangue. ela olhou pra mim e ergueu a taça quando me sentei. "a nós." ela sussurrou "a nós." eu respondi, tocando levemente minha taça na dela, e tomamos um gole. me levantei e pus a mesa, aquela refeição magnífica que nunca em mil anos imaginei preparar. mas estava lá, e era deliciosa.
a garrafa de vinho já estava na metade, e os pratos vazios. ela se levantou, estenteu a mão pra mim, e quando a tomei na minha, me puxou para um abraço. começamos a dançar. no início devagar, acompanhando a música lenta. mas as músicas foram crescendo, assim como nossa volúpia, e em instantes dançávamos um tango furioso, cegas de desejo, praticamente despidas. a cama, tão distante, não foi nem cogitada. nos amamos ali no chão mesmo, ao som de alguma música clássica que acompanhava com perfeição nossos momentos de desespero e calmaria.
olhei para os nossos vestidos entrelaçados, e em seguida nossos corpos, também entrelaçados. a única luz da casa eram as velas, que já ameaçavam apagar. disse que te amava. foi quando a escuridão veio e levou a música junto.
Me acordei repentinamente. tinha lembranças muito vagas de algum sonho que parecia muito bom. nele, ela morava na minha casa. nele, eu sabia cozinhar divinamente e dançar muito bem.. mergulhei na sensação dele e fiquei alguns instantes nesse estupor, até que senti um cheiro excelente vindo da cozinha. no momento que pus meus pés no chão, ela apareceu, com o mesmo vestido vermelho do sonho. com um sorriso, balançou as chaves-reserva que eu sempre deixava no vaso do lado de fora do apartamento. achando graça no meu estupor, me pôs novamente na cama, e apenas com um olhar, me disse pra esperar, ela tinha uma surpresa pra mim. saiu fechando a porta do quarto. me levantei imediatamente, e abri a porta do armário. meu vestido preto estava lá. o vesti com uma sensação de déjà vu, e acabei adormecendo novamente na espera. quando acordei novamente, havia apenas escuridão, e os dedos dela percorrendo minha pele. Senti um beijo leve, e um sussuro "vem jantar comigo, meu amor". E me deixei ser levada sorrindo, pelas mãos suaves da mulher da minha vida.
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