quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Clave de Fá

Entre o negro do céu, do oceano, e do piche, tudo que se podia enxergar eram os faróis dos carros que passavam esporadicamente, como que apenas para não deixar a paisagem em tão completa escuridão.
Um carro parou. Pude apenas observar a silhueta de uma mulher antes que os faróis se apagassem e a escuridão retomasse. Mulher não, menina. Ou seria uma mulher? Desisti de classificá-la e apenas senti seus movimentos do carro até a muralha de pedra que impedia o avanço do mar. Não tinha pressa.
Mais nenhum carro passava pela rua cuja virgindade fora tirada pela menina-mulher que ali meditava, parada diante do mar, os olhos faiscando de admiração por aquele negrume revoltoso que jazia sob seus pés. Era a única coisa que eu conseguia enxergar. As faíscas que saltavam dos olhos dela. Olhos tão negros como tudo que estava ao seu redor. Mas ainda assim com um brilho inextinguível, inalcançável.
Outro brilho chamou minha atenção, e vi que acendia um cigarro. Junto com a fumaça que saía da sua boca, vieram as primeiras notas. Começou devagar, baixinho, como que cantando pra si mesma. Sua voz era suave, e me espantei com o quão gostosa era a sensação dela nos meus ouvidos. À medida que foi cantando mais alto, senti arrepios que se tornavam incontroláveis quando aquela voz alcançava graves que eu nunca sonhara em cantar.
Silêncio.
O cigarro apagara, e me desesperei.

O único cigarro que me restava tinha acabado. Me virei para ir embora quando um vulto surgiu à minha frente. Apesar da escuridão que nos engolia, não senti medo.
Me estendeu um cigarro, e com um sussurro agudo me pediu para cantar.
Na luz que veio da chama do isqueiro, enxerguei. Um par de asas. O meu olhar intrigado foi o suficiente para me fazer ficar novamente sozinha. Sozinha não. Eu sabia que em algum lugar nas trevas minha voz estava sendo esperada. Então cantei. Não sei por quanto tempo, mas quando silenciei o cigarro já havia acabado há muito. Ainda estava escuro. Tive a impressão que o sol nunca nascia naquele lugar.
Eu não queria ir embora, mas havia algo que eu precisava fazer, muito longe dali, em outro mundo talvez.. Então me virei e comecei a caminhar em direção ao carro.

Eu sabia que ela pararia, um dia haveria de parar. Ainda assim, a falta de notas deixou alguma espécie de vazio dentro de mim. Sussurei um agradecimento com a minha voz fina. Ela respondeu "o prazer foi meu."
Entrou no carro, deu a partida, e se foi, deixando a rua novamente no seu silêncio habitual.
Mas era óbvio que aquele lugar nunca mais seria o mesmo. Muito menos eu, continuaria a ser o que costumava ser.

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